Histórias de quem transformou talentos manuais em novos caminhos de vida 

Edição de junho da série sobre o programa Junto & Misturado reúne dez trajetórias de empreendedoras que encontraram no trabalho artesanal uma forma de reconstrução, identidade e pertencimento 

Há quem encontre no empreendedorismo uma oportunidade de renda. Outros encontram acolhimento, propósito e até uma nova forma de existir. Nas Lojas Colaborativas do programa Junto & Misturado, do ISYN, histórias pessoais se transformam em produtos carregados de memória, identidade e recomeços. 

A edição de junho da série mensal que acompanha os participantes do programa apresenta dez trajetórias marcadas pela reinvenção. Em comum, elas têm o fato de terem surgido em momentos decisivos da vida, invariavelmente após demissões, mudanças de carreira, dificuldades emocionais ou simplesmente pela necessidade de transformar um talento antigo em sustento e autonomia. 

Entre crochês, biojoias, arte sacra, resina, aromas e ilustrações, o que se vê vai muito além do artesanato: são pessoas reconstruindo a própria história com as próprias mãos! 

Um desses casos é o de Débora Emíliano Campos, criadora da marca “Amor em Detalhes”. O negócio surgiu no final de 2025 a partir de um desejo compartilhado com o companheiro: construir algo próprio, que representasse parceria e afeto.

Debora Emiliano Campos (Foto: Arquivo Pessoal)

“Comecei a trabalhar com resina no final de outubro de 2025, quando eu e meu namorado já vínhamos tendo várias conversas sobre a nossa vontade de trabalhar para nós mesmos, de ter algo nosso, que representasse nosso cuidado um com o outro, nossa parceria, nosso amor.”, comenta.  

Sem experiência anterior com resina, Débora aceitou um primeiro desafio para produzir peças para a inauguração de um salão de beleza. “Nunca havia feito nada com resina. Me perguntaram se eu faria, e eu prontamente respondi que sim.” 

Hoje, os principais produtos são chaveiros e bandejas decorativas, mas o maior desejo dela vai além da venda. “Quero poder eternizar o amor em pequenos detalhes. Não tem preço, tem valor!”

Quando o empreendedorismo nasce da necessidade e vira propósito

A trajetória de Gabriella Ramos Panisso começou a partir de uma dificuldade pessoal: beber água. Foi no chimarrão e no tererê que ela encontrou uma alternativa saudável e uma oportunidade de negócio. 

“A Amargotchê nasceu a partir de uma necessidade muito pessoal. Eu tinha muita dificuldade de tomar água e precisava encontrar uma alternativa.”, confessa.  

O hábito acabou mudando sua rotina e despertando o desejo de compartilhar esse ritual com outras pessoas. Hoje, vende cuias de porongo e bombas de aço inox. “Mais do que vender cuias e bombas, quero levar um hábito saudável e um ritual que transformou a minha vida.” 

Já Carol Richardi, encontrou no crochê uma saída para conciliar maternidade e geração de renda. “A marca nasceu a partir da necessidade de um trabalho 100% remoto, que possibilitasse conciliar maternidade e geração de renda de forma digna.”

Carol Richardi (Foto: Arquivo Pessoal)

O conhecimento manual vinha desde a adolescência, aprendido por meio das revistas herdadas da avó. Diante da dificuldade de inserção no mercado formal remoto, transformou o saber artesanal em negócio. 

Hoje, a Colorina Crochê produz bolsas autorais e acessórios funcionais feitos à mão. “Se der medo, vista a coragem que tiver e vá. O caminho se revela quando você não se desvia do propósito.” 

Também motivada pela necessidade de reorganizar a vida profissional, Vanessa Pereira de Farias Oliveira encontrou na arte sacra um novo caminho após anos no setor financeiro.

“Trabalhei por 17 anos na área financeira e fui levando o artesanato em paralelo. Ao ser demitida em 2021, vi como oportunidade mudar de vida e ter realizações profissionais através da minha arte.” 

Hoje, ela produz principalmente santos católicos e terços, muitos deles ligados a histórias afetivas dos clientes. “São produtos que conectam a fé tanto com meus clientes, quanto comigo.” 

Arte, identidade e reinvenção  

Para algumas empreendedoras, o negócio surgiu como consequência natural de um talento que, por muito tempo, permaneceu escondido. 

Foi o caso de Adriana Konrath, publicitária que passou mais de duas décadas atuando como redatora criativa em grandes agências antes de descobrir, aos 45 anos, a paixão pelo desenho. “Perguntei para mim mesma: ‘quem está me proibindo de desenhar?’.”

Adriana Konrath (Foto: Arquivo Pessoal)

O que começou como hobby ganhou reconhecimento e se transformou em profissão. Hoje, Adriana produz oratórios pintados à mão e caixas decoradas com ilustrações femininas. 

“Invista em um negócio que você ama fazer. O sucesso financeiro será reflexo de um dia a dia feito com paixão.” 

A mesma força de identidade aparece na trajetória de Clélia Melatto Lopes Pontes, que trabalha com acessórios há mais de 25 anos. “Não sonhava em me tornar empreendedora. Sonhava em ser artista e viver da minha arte.”  

O negócio nasceu da necessidade de formalização, mas carrega referências familiares profundas. “Meu negócio nasceu por influência das habilidades manuais da família, com inspiração nas mulheres e na força delas para manter as necessidades e a proteção dos filhos.”, conta.  

Entre os produtos mais vendidos estão o “brinco de rosa” e a “pulseira cristã”, peças que atravessaram diferentes fases da marca. “Meu produto passou por inúmeras transformações, mas eu nunca abri mão da minha identidade e história.” 

Negócios construídos com afeto, fé e ancestralidade  

Em muitos casos, empreender também significa preservar vínculos familiares e valores pessoais. Para Idalice Magalhães Oliveira, as biojoias criadas ao lado do pai representam exatamente isso. “Resolvi chamar meu pai para criarmos juntos biojoias.” 

A marca, criada em 2025, aposta em brincos e colares difusores produzidos em madeira, sempre com foco em sustentabilidade. “Legal frisar que meu negócio é entre pai e filha, e a ideia da marca é ter consciência sustentável.”, ressalta. 

Já Valéria Aparecida de Pádua transformou o fascínio por pulseiras em um negócio voltado inicialmente ao público afro-religioso. “A Balaio Dourado começou do meu fascínio por pulseiras.” 

Com o tempo, a marca cresceu e passou a abranger acessórios de diferentes segmentos religiosos. Entre os principais produtos estão pulseiras, terços e colares exclusivos. “Comece pequeno, mas sempre pensando em evoluir.”, aconselha.

Valéria Aparecida de Padua

A espiritualidade também atravessa a trajetória de Katia Pedroza, criadora da “Barraca da Bruxa”. Após anos atuando como cabeleireira, precisou antecipar os planos de aposentadoria por questões de saúde. 

Katia Pedroza (Foto: Arquivo Pessoal)

“Planejei a carreira de terapias holísticas para o pós-aposentadoria, mas, devido a um problema de saúde, antecipei o projeto.”  

Ao migrar para a produção artesanal, passou a criar sprays aromáticos, sabonetes naturais e acessórios com cristais. “Descobri meu lado artesã sobressaindo sobre a terapeuta, e isso acabou sendo muito satisfatório.” 

Transformar talento em permanência  

As histórias de junho também revelam algo em comum entre os participantes das Lojas Colaborativas: a busca por continuidade. Não apenas sobreviver financeiramente, mas permanecer fazendo aquilo que faz sentido. 

Isso é o que move Beatriz de Paula Romagnoli, que há 15 anos trabalha criando presentes personalizados e afetivos. “Sempre apreciei presentes criativos, afetivos e personalizados.”, diz. 

Entre os produtos mais populares que ela vende, estão canecas interativas com caça-palavras e quebra-cabeças ilustrados com pontos turísticos brasileiros. “Nessa trajetória fiz inúmeros reajustes de rota. O aprendizado é constante.” 

Ao reunir histórias tão diferentes, essa edição da série sobre a atual turma do Junto & Misturado reforça que o empreendedorismo, dentro do programa vai muito além do comércio. Cada peça vendida carrega uma travessia pessoal, construída entre medo, tentativa, afeto e coragem. 

No fim, o que une essas trajetórias não é apenas o desejo de empreender. É a decisão de continuar, mesmo quando a vida exigiu recomeçar do zero.