Histórias de abril: como 10 empreendedores transformaram desafios em novos começos nas Lojas Colaborativas
ISYN reúne mais dez histórias de empreendedores do projeto Junto & Misturado que transformaram desafios pessoais em negócios cheios de propósito
Para muitas empreendedoras e empreendedores do programa Junto & Misturado Lojas Colaborativas, empreender foi, antes de tudo, uma resposta à vida: às suas rupturas, dores e recomeços.

Nesta edição da série mensal que acompanha trajetórias de participantes do projeto, 10 novas histórias mostram como diferentes experiências pessoais. De superações na saúde a mudanças bruscas de rotina, cada história deu origem a negócios que vão além da geração de renda: representam reconstrução.
Entre linhas, agulhas, cerâmica, tecidos e criatividade, histórias pessoais ganham forma em produtos que carregam mais do que estética.
É o caso de Ana Carolina Castro Calabró da Silva que transformou um momento delicado em ponto de virada. O artesanato, que começou como terapia, se tornou essencial quando seu marido enfrentou um câncer.
“Fiz muitas mandalas para decorar a casa da minha irmã, mas escutei muito que artesanato não dava dinheiro. Em 2024, meu esposo teve um câncer e eu precisei ficar como acompanhante. Comecei a fazer Nossa Senhora Aparecida em ‘amigurumi’, e os médicos, enfermeiros e familiares começaram a comprar para ajudar no orçamento da minha casa.”




Hoje, ela se especializou em arte sacra e tem na imagem de Nossa Senhora Aparecida e nas mandalas decorativas seus principais produtos. “Nunca desisti, sempre persisti e hoje estou colhendo os frutos da minha insistência.”
Quando recomeçar deixa de ser escolha e vira necessidade
A decisão de empreender nem sempre vem acompanhada de segurança. No caso de Karina Aparecida Ozawa de Lima foi a saúde que redefiniu o novo caminho.
“Em 2019 saí da CLT por motivo de saúde. Caí em depressão. Em seguida, uma pandemia devastadora, quando produzi mais de 7 mil máscaras. Foi aí que, em 2021, decidi empreender!”
Hoje, Karina produz bolsas e carteiras femininas, incluindo peças criativas como a “Frasqueira Kombi” e a “Niqueleira Fusca”. “Vai com medo mesmo!”, enfatiza.

A mesma coragem aparece na trajetória de Iraci Santana Nunes Reinaldo que encontrou na costura uma forma de enfrentar a depressão. “Comecei a costurar por ter uma depressão.”, conta.
No caso dela, a inspiração veio do que já existia como exemplo. “Eu olhava nas feirinhas, as barracas de artesanato e tinha uma vontade de expor meus artesanatos, fui atrás do meu sonho”. Hoje, ela produz bolsas e carteiras femininas e reforça: “Vá em busca de seus sonhos, não tenha medo do não”.

Empreender como escolha de vida e de identidade
Para outros, como Adriana Nista, o empreendedorismo surgiu como realização tardia, mas não menos potente. Depois de 34 anos no mundo corporativo, ela decidiu seguir seu sonho artístico.
“O Ateliê Uniart nasceu há 4 anos, como um novo capítulo da minha história. Decidi seguir o coração e transformar a paixão pelo feito à mão em propósito.” Hoje, ela produz peças de decoração, como panos de copa e toalhas de mão. “Cada peça carrega cuidado, criatividade e o desejo de levar afeto e significado para o dia a dia das pessoas.”

Já Zelma Linares encontrou na aposentadoria o impulso que faltava para investir em um antigo hobby. “Em 2023 deixei de ser celetista e comecei a correr atrás do meu sonho, ser ceramista e ter o próprio negócio.” Seus principais produtos são o “gato porta-anéis” e mini bowls.



“Sempre amei artesanato, e um dos cursos que fiz foi de canetado em cerâmica fria. Então, conversei com meu professor que queria fazer cerâmica queimada no forno e comecei o curso com ele. Na época, eu comprava as peças, esmaltava e fazia as queimas, mas, aos 50 anos de idade, o meu professor faleceu. Foi muito duro, pois, além de ser meu professor, era também um grande amigo.”, conta Zelma.
Entre sonhos, necessidade e persistência
Há histórias que contam que nem sempre o caminho é linear. É o caso de Claudia Regina Fernandes Bueno, que encontrou no empreendedorismo uma alternativa contra do etarismo.
“Quando cheguei aos 50 anos e resolvi voltar ao mercado de trabalho, não existia nada para mim. Eu sou velha… Foi aí que decidi ser uma empreendedora de sucesso”. Hoje, ela cria acessórios em resina inspirados em obras de arte.

Aline Roberta da Silva encontrou no empreendedorismo um novo caminho após a saída do último emprego com carteira assinada. “Há um ano estou somente com o Ateliê Nina Fios. A motivação foi após a saída do meu último emprego como CLT”, conta.
Atualmente, Aline produz principalmente bolsas e peças de vestuário em crochê (como coletes, por exemplo) e vê no próprio negócio uma construção que vai além da renda.
“Ter meu próprio negócio é sobre estar tendo um olhar sobre minha vida, concretizando um sonho meu que irá impactar diretamente na minha família e indiretamente na vida dos meus clientes.”
A experiência anterior também trouxe aprendizados importantes para a nova fase, como se preparar melhor e estruturar o seu negócio
Seguindo esse raciocínio de reestruturações, Andreli Ribeiro Silva precisou reorganizar a vida após o nascimento da filha prematura.
“Em 2020, minha filha nasceu na pandemia. Não pude mais trabalhar fora, pois ela nasceu prematura extrema, muito pequena. Por esse motivo, não voltei ao trabalho externo e retornei ao artesanato, com crochê, chaveiros e tapetes. Em 2024, comecei a fazer chinelos em crochê, enviando para Portugal e Espanha, e daí começaram as encomendas semanais, além de feiras em parques e condomínios e pedidos pelo meu Instagram.”

Entre memória, identidade e propósito: quando o produto carrega uma história
Se em muitos casos o empreendedorismo nasce da urgência, em outros ele floresce como extensão da própria identidade e ganha força na maneira como cada criador imprime sua história em cada criação.
É o que acontece com Deise Tassi Mauricio que, após a aposentadoria, decidiu transformar a criatividade em rotina e negócio. “Há aproximadamente 4 anos, depois de me aposentar, resolvi fazer o que gosto, usando a criatividade.”

O caminho, entretanto, não foi apenas técnico, mas também simbólico. Entre os produtos que desenvolve, as mochilas antifurto se tornaram os carros-chefes de Deise, ao lado de uma linha que carrega um olhar contemporâneo sobre sustentabilidade. “Desde outubro do ano passado estou trabalhando também com uma linha de bolsas upcycle com jeans reciclado.”, complementa.
A ideia dela é expandir fronteiras e dialoga diretamente com um sonho antigo: “Sonhava em vender minha arte em uma ‘kombi loja’. Há 6 meses consegui realizar este sonho.”, comemora Deise.
Para Léa Nascimento Santa Rosa empreender é, antes de tudo, dar continuidade a uma história que começou ainda na infância, no interior da Bahia. “Sou artesã por amor. Desde menina, no interior da BA, na roça, para ser exata. Minha mãe fazia bonecas de pano com roupas velhas, pois me via brincar com sabugo de milho. Eu amava ver ela fazer.”
O tempo passou, mas a memória afetiva permaneceu como base do seu trabalho. Anos depois, ao abrir uma floricultura em São Paulo (SP), o talento voltou a ganhar espaço, agora com identidade própria.

Entre suas criações, as bonecas carregam não apenas técnica, mas também narrativa. A chamada “Coleção Primogênita”, por exemplo, surgiu de forma simples e ganhou novos desdobramentos a partir da relação com o público. Hoje, mais do que vender, Léa valoriza o reconhecimento do seu trabalho.
“Comecei com um modelo e fiquei 3 anos tendo só um modelo de boneca. Até que um dia uma cliente, que hoje é amiga, me fez um desafio e me encomendou uma Emília. “Ver meu produto sendo valorizado não tem preço, tem valor!”.
Ao reunir todas essas trajetórias o projeto Junto & Misturado mostra que cada produto é também um relato. Um registro silencioso de escolhas, perdas, afetos e recomeços que continuam sendo escritos, peça por peça.