Entre recomeços e descobertas, dez empreendedoras transformam talento em negócio

No Junto & Misturado, projeto do Instituto SYN, histórias que passam por desemprego, cuidado com a família e busca por bem-estar encontram espaço para crescer e conquistar novos públicos 

Uma mandala pintada durante uma sessão de terapia. Um colar que precisava de conserto. Uma máquina de costura que, em meio a um período difícil, voltou a ter utilidade. Às vezes, um negócio começa assim, sem plano definido ou certeza de onde vai chegar. 

As histórias de outubro de dez empreendedoras que participam das Lojas Colaborativas Junto & Misturado, iniciativa do Instituto SYN, mostram diferentes caminhos até o empreendedorismo. Enquanto algumas encontraram no artesanato uma forma de atravessar momentos delicados, outras transformaram uma paixão antiga em fonte de renda ou descobriram, quase por acaso, uma profissão. 

Em comum, essas trajetórias têm o trabalho manual, a criatividade e a disposição para aprender. Agora, os participantes levam seus produtos para espaços de venda nos shoppings Cidade São Paulo, Tietê Plaza e Grand Plaza, onde podem conhecer novos clientes, testar a aceitação das peças e ampliar sua experiência no varejo. 

O projeto está em sua oitava edição e já impactou centenas de empreendedores, contribuindo para a geração de aproximadamente R$ 2 milhões em vendas. Além disso, a iniciativa proporciona uma experiência prática de mercado e oportunidades de troca entre os participantes.  

Quando o trabalho também ajuda a recomeçar   

Para Mônica Blanco, de 52 anos, o artesanato começou como uma proposta terapêutica. Em 2021, sua terapeuta sugeriu que ela encontrasse um hobby. Mônica experimentou diferentes técnicas, até que descobriu as mandalas. A partir daí, pintá-las passou a exigir uma concentração que, segundo ela, a ajudava a permanecer no presente.

A primeira venda veio em uma feira gratuita, em Itaquera, ainda durante a pandemia. A cliente era justamente sua terapeuta, que comprou um kit chamado Pedra da Gratidão e uma pequena mandala feita em CD. O episódio ficou marcado como o início de uma trajetória que, aos poucos, ganhou forma de negócio. 

Hoje, à frente da marca Eu Escolho Relaxar, Mônica reúne coleções inspiradas em suas experiências, estudos e pesquisas. Em 2026, decidiu formalizar a atividade como microempreendedora individual (MEI) e aprofundar seus conhecimentos sobre gestão.

“Quero aprender a olhar para o meu trabalho não apenas como artesã, mas também como dona de um negócio”, explica. No Tietê Plaza, ela pretende observar o comportamento dos consumidores e entender quais produtos despertam mais interesse. 

Monica Blanco
Monica Blanco. (Foto: Arquivo Pessoal)

A relação entre trabalho e bem-estar também aparece na história de Rosemary Queroz. Em 2022, diante da depressão do filho, ela começou a produzir terrários. A atividade se tornou uma fonte de renda e envolveu a família no processo de criação.  

Hoje, seus produtos incluem pequenos ecossistemas montados em recipientes de vidro e jardins de suculentas e cactos. Agora, pela segunda vez no projeto, no Tietê Plaza, Rosemary quer ampliar as vendas e conquistar clientes que continuem acompanhando a marca depois do período na loja. 

“O artesanato fez meu filho ficar bem, me ajudando em várias partes do processo do trabalho. E com ele feliz, fico feliz também”, conta. 

Rosemary Queroz (Foto: Arquivo Pessoal)

Outra história que nasceu de uma mudança inesperada é a de Isabel Sandra de Oliveira, de 46 anos. Depois de 13 anos trabalhando com carteira assinada, ela foi demitida e começou a fazer cursos on-line de bolachas artesanais. A experiência despertou um interesse que até então não fazia parte de seus planos profissionais. 

Em outubro, sua empresa completa cinco anos. Agora, no Grand Plaza Shopping, Isabel apresenta bolachas decoradas e personalizadas, usadas em aniversários e eventos corporativos, além de uma receita amanteigada de família. O catálogo também oferece opções sem glúten, sem açúcar ou sem lactose. 

Para ela, empreender exige disposição para enfrentar os desafios cotidianos. A loja colaborativa representa a chance de apresentar seus produtos a um público diferente e ampliar o alcance do negócio. 


Habilidades antigas, novos caminhos  

Nem toda trajetória começa com a intenção de abrir uma empresa. No caso de Andreia de Oliveira Nascimento, de 53 anos, tudo começou em 2004, quando sua mãe pediu que ela consertasse um colar de que gostava muito. A experiência despertou o interesse pela criação de bijuterias. 

Andreia passou a produzir colares, pulseiras e brincos e chegou a vender para lojas. No entanto, em 2008, a chegada da filha e o diagnóstico de Alzheimer da mãe mudaram sua rotina. Ela interrompeu a atividade para cuidar da família. Após a morte dos pais e com a filha mais velha, retomou a produção em 2022. 

Hoje, trabalha com brincos feitos de resinas e pedras naturais, além de colares com identidade própria. No Grand Plaza, espera tornar sua marca mais conhecida e se aproximar do sonho de ter uma loja própria.

Andreia de Oliveira Nascimento. (Foto: Arquivo Pessoal)

A criatividade também acompanha Danielle Borges Pavezi há muito tempo. Designer, ela começou a trabalhar na gráfica do pai aos 15 anos e, ao longo dos anos, transformou a experiência em um negócio de presentes personalizados. A empresa completa 16 anos de atividade. 

Entre seus produtos estão caixas-convite para padrinhos de batismo, com itens como canecas, velas aromáticas e terços, além de pelúcias de Jesus e Nossa Senhora. Agora, no Tietê Plaza, Danielle busca ampliar as vendas e oferecer aos clientes que já conhecem sua marca pela internet a possibilidade de comprar presencialmente. 

“Não espere perder o medo para começar. Comece mesmo com medo, acredite no seu potencial e permita-se aprender durante o caminho”, aconselha.  

Danielle Borges Pavezi. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 28 anos, Evelyn dos Anjos Nascimento Costa também encontrou na criação uma forma de dar vida às próprias ideias. A empresa dela nasceu em 25 de janeiro de 2026, depois que ela descobriu o amigurumi, técnica de crochê usada para produzir bonecos e personagens. 

Evelyn se interessou pela possibilidade de criar peças inspiradas em personagens da infância. Assim, passou a desenvolver produtos personalizados inspirados em memórias afetivas e personagens especiais. No Shopping Cidade São Paulo, a experiência na loja colaborativa superou as expectativas e ajudou a perceber o potencial da empresa. 

Evelyn Anjos (Foto: Arquivo Pessoal)

Já Carmen Lucia Ferreira Riguengo, de 71 anos, começou a produzir peças durante a pandemia, quando sair de casa não era uma opção. Hoje, cria mini mandalas em micro macramê, além de cordões e brincos. No Shopping Cidade São Paulo, quer tornar os produtos conhecidos e testar a aceitação do público. 

Carmen Lucia Riguengo. (Foto: Arquivo Pessoal)

A história de Alessandra Armidoro também passa por uma mudança profissional. Há quase dez anos, depois de ficar desempregada, ela encontrou no crochê uma forma de ocupar o tempo e gerar renda. Assim nasceu a Bicho Grilo Crochê, marca de cestos e peças decorativas que combinam funcionalidade e trabalho artesanal. 

No Grand Plaza Shopping, Alessandra espera aprender com outros artesãos e desenvolver a experiência de atendimento presencial. Para quem pensa em começar, deixa um conselho direto: “Não deixe a insegurança impedir você de começar. Dê o primeiro passo e permita-se descobrir até onde ele pode chegar”. 

Alessandra Armidoro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Cuidado, memória e identidade em cada peça 

Para Jacqueline da Silva Teixeira, a mudança de carreira veio após uma demissão. Engenheira agrônoma, ela começou a produzir alimentos para amigos, há dez anos, e transformou a atividade na Atma Cozinha Ancestral. As receitas de família são o ponto de partida de um trabalho que busca preservar memórias e criar vínculos por meio da comida. 

No Shopping Cidade São Paulo, Jacqueline apresenta produtos como o biscoito nevado de cacau 100% e o biscoito de café. A ideia de empreender em uma cafeteria, que já fez parte de seus planos, deu lugar à cozinha. Para ela, o planejamento é essencial para quem pretende construir um negócio.

Produtos “ancestrais” da Atma (Foto: Arquivo Pessoal)

A atenção ao cuidado também está no centro da Colorê Cuidado, criada por Tatiane Santos Oliveira, de 32 anos. Estilista e mãe de uma menina autista, ela começou a produzir acessórios em julho de 2025, em um período de dificuldade financeira. 

A primeira ideia surgiu ao observar um tecido de cetim e pensar em suas possibilidades para o autocuidado. Em seguida, Tatiane confeccionou scrunchies, acessórios de cabelo que vendeu para outras mães na clínica onde a filha faz terapia. A partir daquele encontro, percebeu que muitas mulheres dedicavam tanto tempo ao cuidado dos outros que acabavam deixando a si mesmas em segundo plano. 

A marca cresceu e passou a oferecer toucas, fronhas, modeladores de cachos e joias bordadas à mão. No Grand Plaza Shopping, Tatiane quer ampliar a divulgação da Colorê, conquistar clientes e aprender mais sobre vendas e gestão. 

“Não espere perder o medo para começar. Comece mesmo com medo, dê um passo de cada vez e permita que o caminho ensine você”, diz. 

Uma experiência que vai além das vendas  

As dez trajetórias mostram que empreender não segue uma única fórmula. Em alguns casos, o negócio nasce de uma necessidade financeira; em outros, de uma habilidade desenvolvida ao longo dos anos ou de uma descoberta pessoal. No entanto, transformar uma atividade em fonte de renda exige mais do que saber produzir. 

Também é preciso conhecer o público, calcular custos, entender o comportamento dos clientes e encontrar formas de apresentar os produtos. A experiência nas lojas colaborativas oferece aos participantes a oportunidade de observar essas questões na prática, além de trocar conhecimentos com outros empreendedores. 

Para Mônica, por exemplo, a passagem pelo shopping é uma oportunidade de compreender as diferenças entre vender em feiras e atender em uma loja. Tatiane quer fortalecer a marca e criar novas conexões. Evelyn percebeu que sua empresa tem potencial para crescer. Alessandra espera aprender com outros artesãos e desenvolver o atendimento presencial. 

O Junto & Misturado reúne essas experiências em um mesmo espaço. Mais do que colocar produtos à venda, o projeto cria condições para que pequenos negócios ganhem visibilidade, testem novos caminhos e desenvolvam competências para continuar crescendo depois da experiência nas lojas.