Quando empreender é resistir para se reinventar
Como 10 empreendedores transformaram perdas em novos começos nas lojas colaborativas do ISYN
Empreendedores do projeto Junto & Misturado transformam perdas, doenças, recomeços e continuidade familiar em negócios que unem propósito, renda e impacto emocional
Empreender nem sempre nasce de um plano estruturado. Para as artesãs e artesãos participantes das Lojas Colaborativas do projeto Junto & Misturado, muitos negócios começaram a partir de momentos de ruptura. Luto, câncer, AVC, crise de ansiedade, demissões. Em comum, a decisão de transformar dor em movimento.
Instaladas nos shoppings Cidade São Paulo, Grand Plaza e Tietê Plaza, as Lojas Colaborativas reúnem empreendedores que encontraram no artesanato e na economia criativa uma forma de reconstruir trajetórias pessoais e profissionais. A iniciativa recebe o apoio do ISYN e é conduzida pelo Sebrae-SP e pelo Instituto Ecoar.
Neste texto, vamos dividir histórias de 10 desses empreendedores, que por motivos distintos, acabaram seguindo um mesmo caminho.
Quando empreender vira sobrevivência emocional
A história da publicitária Natali Joaquim Conde Feitosa, 31 anos, talvez seja uma das mais emblemáticas. A marca de velas aromáticas que criou, a Pyro, surgiu após duas perdas gestacionais e, na sequência, um diagnóstico de câncer de mama.

“A Pyro nasceu como uma tentativa de sobrevivência emocional”, relata. “Eu precisava ocupar a mente, mas, mais do que isso, precisava transformar a dor em algo que me mantivesse de pé.”.
Mesmo durante o tratamento, ela seguiu produzindo. “Trabalhei durante todas as minhas quimioterapias brancas e só parei de trabalhar nas quimioterapias vermelhas, após ficar internada na UTI e a médica pedir para segurar o ritmo.”, revela Natali.
Em 2025, já em remissão, fechou o ano com faturamento de R$ 92 mil. “Hoje, em remissão, posso dizer que não carrego apenas uma empresa. Carrego um recomeço.”.
Entre os principais produtos estão a Vela Home e o Difusor de Varetas Home, com destaque para a fragrância “Algodão com Madeira Nobre”, conhecida entre as clientes como o cheiro de “casa de gente rica”.
Histórias de enfrentamento à doença também marcam a trajetória de Tânia Gonçalves de Lima, 53 anos. Após um câncer agressivo, demissão e corte de benefício no início da pandemia, encontrou nas bijuterias uma forma de manter o equilíbrio emocional.



“Aconteceu por necessidade e pelo prazer de fazer algo que adoro!”.
Para Tânia, cada brinco e pulseira produzidos representam mais do que venda, representam continuidade.
Roseneide Santana Nascimento do Carmo, 52 anos, também encontrou no trabalho manual uma forma de reconstrução após um AVC. Ela começou pintando caixinhas em MDF para recuperar a coordenação motora e depois, passou a produzir terços e acessórios religiosos.

“Confie, acredite e busque conhecimento, isso nos prepara a realizar o nossos sonhos!”, aconselha.
Reinvenção, propósito e autonomia
A reinvenção também define a história de Andréia Alves da Silva, 41 anos. O crochê aprendido na infância voltou à sua rotina após uma crise de ansiedade que a levou a fechar o salão de estética que mantinha. Durante a pandemia, Andréia decidiu viver exclusivamente do artesanato. Hoje ela produz, entre outras peças, um tênis em crochê personalizável e um amigurumi de Nossa Senhora Aparecida.



Para quem hesita em empreender, ela é direta: “Quem é bom em dar desculpa, não é bom em mais nada.”.
Já Maria Aparecida Vedovelo Sarraf, de 63 anos (e professora por mais de três décadas), encontrou no crochê moderno uma nova fase profissional após a aposentadoria. Bolsas versáteis e peças de cestaria para decoração e organização tornaram-se seus principais produtos.

“Me tornar crocheteira e empreendedora foi muito (e está sendo) desafiador e importante para quem atuou ‘apenas’ por quase 40 anos na área da Educação.”, comenta Maria.
A busca por propósito também aparece na trajetória de Elaine Rosa de Lima, 51 anos. Após mais de 20 anos no setor financeiro, ela criou a Nane Terrários para “resgatar o brilho nos olhos”. Os terrários personalizados deram origem à marca, que hoje inclui bijuterias e itens voltados ao autocuidado feminino.
“Planejamento é o caminho, começar sem planejar nos faz ter que retraçar muitas rotas”, aconselha Elaine.
Helen Holanda de Oliveira, de 45 anos, iniciou a marca de acessórios em meio às incertezas da pandemia. A personalização surgiu da dor de uma cliente que buscava uma peça específica ligada à sua doutrina religiosa. Atualmente, colares escapulários de orixás e brincos personalizados fazem parte do catálogo.

“Quem tem vontade, tem metade. Comece, se aprimore cada vez mais, encare os percalços como aprendizado e aperfeiçoamento e aproveite o caminho.”, ressalta Helen.
No ramo de acessórios, também conhecemos a história de Vanessa Petarnella Araujo, de 51 anos de idade. Ela transformou a confecção de acessórios para a própria filha na marca Arte da Mamãe. Laços e tiaras de linho são os produtos principais. O artesanato, segundo ela, surgiu como terapia e acabou se tornando propósito.

Tradição, sustentabilidade e validação de mercado
Nem todas as histórias começaram com uma ruptura recente. Algumas carregam o “gene empreendedor”, como é o caso do artesão Karl Heinz Hadzic Junior, de 46 anos. Ela aprendeu a trabalhar com o couro ainda na adolescência, com o pai, um mestre artesão.

Hoje, Karl produz bolsas, bonés e acessórios utilizando sobras da indústria coureira. “Vai lá, pesquisa o que quer e faça”, aconselha.
Edson Antonio Gonçalves, 56 anos, trabalha com madeira de demolição, criando luminárias e castiçais exclusivos a partir de peroba-rosa e cambará.

“Faço algo que amo fazer. Não tinha noção que esse empreendimento me faria tão bem”, afirma Edson.
Em comum, esses empreendedores e empreendedoras destacam a importância das Lojas Colaborativas como espaços de validação e crescimento.
Para muitos, foi o primeiro contato estruturado com o público direto, a primeira vitrine real para seus produtos, uma chance para aprender mais e evoluir modelos de negócio ou a oportunidade que faltava para ampliar redes de contato.
Mais do que um ponto de venda, o projeto Junto & Misturado Lojas Colaborativas funciona como um ambiente de troca, aprendizado coletivo e fortalecimento da autoestima empreendedora. Entre velas aromáticas, bolsas de crochê, acessórios religiosos, peças em couro e luminárias artesanais, cada produto carrega algo invisível, mas essencial: a decisão de transformar um sonho em um negócio.
Para esses 10 empreendedores, abrir um negócio não foi apenas uma estratégia de renda. Foi uma forma de transformar uma necessidade em propósito e propósito em futuro.